quinta-feira, 2 de junho de 2011

Biografia do Autor

Álvares de Azevedo

Introdução

A revolta contra os valores vigentes faz com que a produção literária dessa época crie uma onda de pessimismo doentio diante do mundo, que manifesta-se no apego aos ambientes sombrios e decadentes, no vício, e na autodestruição através do álcool, do ópio, e de outras drogas. Acentuam dessa forma traços como o subjetivismo e o sentimentalismo, sondando as regiões desoladas da mente humana. Nesse cenário conturbado é que viveu um dos maiores representantes do Romantismo no Brasil.

Vida

Em 12 de setembro de 1831, nasce em São Paulo o filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e de Maria Luísa Mota Azevedo. O nome dele é Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Patrono da Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de Coelho Neto. Alguns biógrafos alegam que ele tenha nascido na sala da biblioteca da Faculdade de Direito de São Paulo, porém a hipótese mais aceita é que tenha nascido na casa de seu avô materno.
No ano de 1833, muda-se com os pais para o Rio de Janeiro, onde fez o curso primário. Em 1835 morre seu irmão mais novo, Inácio Manuel, em Niterói, deixando o futuro poeta profundamente abalado. Em 1840, ingressa no colégio Stoll, onde destaca-se como excelente aluno. Seu desempenho rende elogios do proprietário do colégio, o Dr. Stoll: "Ele reúne, o que é muito raro, a maior inocência de costumes à mais vasta capacidade intelectual que já encontrei na América num menino da sua idade".
Cinco anos depois, entra para o internato Colégio Pedro II, onde foi aluno de Gonçalves de Magalhães, introdutor do Romantismo no Brasil. Ao contrário da maioria, nasceu em uma família rica e tradicional, e foi um dos poucos poetas que cresceu em condições plenamente favoráveis para seu desenvolvimento intelectual e cultural.
Em 1848 matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde foi estudante aplicadíssimo e de cuja intensa vida literária participou ativamente, fundando, inclusive, a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano.
Entre seus contemporâneos, encontravam-se José Bonifácio (o Moço), Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, estes dois últimos suas maiores amizades em São Paulo, também poetas e célebres boêmios, prováveis membros da Sociedade Epicuréia. Sua participação nessa sociedade secreta, que promovia orgias famosas, tanto pela devassidão escandalosa quanto por seus aspectos mórbidos e satânicos, é negada por biógrafos respeitáveis. Mas a lenda em muito contribuiu para que se difundisse a sua imagem de "Byron Brasileiro".

A partir de 1851 o poeta passa a ter fixação pela idéia da morte. Isso fica claro nas cartas destinadas à mãe e à irmã.
Sofrendo de tuberculose, conclui o quarto ano de seu curso de Direito e vai passar férias no Rio de Janeiro. No entanto, ao passear a cavalo pelas ruas do Rio, sofre uma queda, que traz à tona um tumor na fossa ilíaca. Em 25 de Abril de 1852, aos 20 anos, morre Álvares de Azevedo, pronunciando, nos braços paternos, a última frase: "Que tragédia, meu pai!". Hoje está sepultado no Cemitério São João Batista, jazigo 12A, no Rio de Janeiro. Álvares de Azevedo deixou uma obra relativamente extensa, para quem viveu tão pouco.
Como quem anunciasse a própria morte, no mês anterior escrevera a última poesia sob o título “Se eu morresse amanhã”, que foi lida, no dia do seu enterro, por Joaquim Manuel de Macedo.


Obra

Álvares de Azevedo, representante brasileiro mais legítimo do mal-do-século, foi fortemente influenciado por Lord Byron, Heine e Musset, e ainda de Shakespeare, Dante e Goethe. Sua poesia é marcada pelo subjetivismo, melancolia e um forte sarcasmo. Os temas mais comuns são o desejo de amor e a busca pela morte. O amor é sempre idealizado, povoado por virgens misteriosas, que nunca se transformam em realidade, causando assim a dor e a frustração que são acalmadas pela presença da mãe e da irmã.
Já a busca pela morte tem o significado de fuga, o eu-lírico sente-se impotente frente ao mundo que lhe é apresentado e vê na morte a única maneira de libertação. De sua obra, toda ela publicada postumamente, destacam-se os contos do livro "Noite na Taverna" (1855), a peça de teatro "Macário" (1855) e o livro de poesias "Lira dos Vinte Anos" (1853). 
Merece um destaque especial a "Lira dos Vinte Anos", composta de diversos poemas. A Lira é dividida em três partes, sendo a 1ª e a 3ª da Face Ariel e a 2ª da Face Caliban. A Face Ariel mostra um Álvares de Azevedo ingênuo, casto e inocente. Já a Face Caliban apresenta poemas irônicos e sarcásticos.
Toda a obra de Álvares de Azevedo foi realizada entre 1848 e 1852, durante o tempo em que frequentou a Faculdade de Direito de São Paulo e os poucos meses que viveu no Rio; escrita às pressas, com a preocupação de quem sente a morte aproximar-se e a única forma de agarrar-se à vida é escrever para a posteridade. É uma obra cheia de imperfeições e descuidos. Apesar de seu caráter ser essencialmente imaginativo e fantasioso, em sua obra sempre mantinha os pés em terra firme e é por essa razão que muitos críticos apontam na sua obra prenúncios de realismo.
Disse dele Edgard Cavalheiro: "Faltou-lhe para ser gênio, exclusivamente isto: tempo. Fez vibrar todas as cordas da lira, do mais ingênuo lirismo ao mais desabusado erotismo. É zombeteiro e irônico, alegre e triste, vibrante e meigo, sensual e pudico. Devemos-lhe a introdução do humor na poesia brasileira."

1ª Crítica


          Um poeta houve, que apesar da sua extrema originalidade, não de receber esta influência a que aludimos, foi Álvares de Azevedo. Nele, porém, havia uma certa razão de consanguinidade com o poeta inglês (Byron), e uma íntima convivência com os poetas do norte da Europa. Era provável que os anos lhe trouxessem uma tal ou qual transformação, de maneira a afirmar-se mais a sua individualidade, e a desenvolver seu robustíssimo talento.
          A essas palavras acrescentávamos que o autor da Lira dos vinte anos exercera uma parte de influência nas imaginações juvenis. Com efeito, se Lord Byron não era então desconhecido às inteligências educadas, se Otaviano e Pinheiro Guimarães já tinham trasladado para o português alguns cantos do autor de Giaour, uma grande parte de poetas, ainda nascentes e por nascer, começaram a conhecer o gênio inglês através das fantasias de Álvares de Azevedo, e apresentaram, não sem desgosto para os que apreciam a sinceridade poética, um triste cepticismo de segunda edição. Cremos que este mal já está atenuado, se não extinto.
          Álvares de Azevedo era realmente um grande talento; só lhe faltou tempo, como disse um dos seus necrólogos. Aquela imaginação vivaz, ambiciosa, inquieta, receberia com o tempo as modificações necessárias; discernindo no seu fundo intelectual aquilo que era próprio de si, e aquilo que era apenas reflexo alheio, impressão da juventude. Álvares de Azevedo, acabaria por afirmar a sua individualidade poética. Era daqueles que o berço vota à imortalidade. Compara-se a idade com que morreu aos trabalhos que deixou, e ver-se-á que seiva poderosa não existia, naquela organização rara. Tinha os defeitos, as incertezas, os desvios, próprios de um talento novo, que não podia conter-se, nem buscava definir-se. A isto acrescenta-se que a íntima convivência de alguns grandes poetas da Alemanha e da Inglaterra produziu, como dissemos uma poderosa impressão naquele espírito, aliás tão original. Não tiramos disso nenhuma censura; essa convivência, que não poderia destruir o caráter da sua individualidade poética, ser-lhe-ia de muito proveito, e não pouco contribuiria para a formação definitiva de um talento tão real.
          Cita-se sempre, a propósito do autor da Lira dos vinte anos, o nome de Lord Byron, como para indicar as predileções poéticas de Azevedo. É justo, mas não basta. O poeta fazia uma frequente leitura de Shakespeare, e pode-se afirmar que a cena de Hamlet e Horácio, diante da caveira de Yorick, inspirou-lhe mais de uma página de versos. Amava Shakespeare, e daí vem que nunca perdoou a tosquia que lhe fez Ducis. Em torno desses dois gênios, Shakespeare e Byron, juntavam-se outros, sem esquecer Musset, com quem Azevedo tinha mais de um ponto de contacto. De cada um desses caíram reflexos e raios nas obras de Azevedo. Os Boêmios e O poema de frade, um fragmento acabado, e um borrão, por emendar, explicarão melhor este pensamento.
          Mas esta predileção, por mais definida que seja, não traçava para ele um limite literário, o que nos confirma na certeza de que, alguns anos mais, aquela viva imaginação, impressível a todos os contactos, acabaria por definir-se positivamente.
          Nesses arroubos da fantasia, nessas correrias da imaginação, não se revela somente um verdadeiro talento, sentia-se uma verdadeira sensibilidade. A melancolia de Azevedo era sincera. Se excetuarmos as poesias e os poemas humorísticos, o autor da Lira dos vinte anos raras vezes escreve uma página que não denuncie a inspiração melancólica, uma saudade indefinida, uma vaga aspiração. Os elos versos que deixou impressionam profundamente, “Virgem morta”, “À minha mãe”, “Saudades” são completas neste gênero.
          Qualquer que fosse a situação daquele espírito, não há dúvida nenhuma que a expressão desses versos é sincera e real. O pressentimento da morte, que Azevedo exprimiu em uma poesia extremamente popularizada, aparecia de quando em quando em todos os seus cantos, como um eco interior, menos um desejo que uma profecia. Que poesia e que sentimento nessas melancólicas estrofes!
          Não é difícil ver que o tom dominante de uma grande parte dos versos ligava-se a circunstâncias de que ela conhecia a vida pelos livros que mais apreciava. Ambicionava uma existência poética, inteiramente conforme à índole dos seus poetas queridos. Este afã dolorido, expressão dele, completava-se com esse pressentimento de morte próxima, e enublava-lhe o espírito, para bem da poesia que lhe deve mais de uma elegia comovente.
          Como poeta humorístico, Azevedo ocupa um lugar muito distinto. A viveza a originalidade, o chiste, o humor dos versos deste gênero são notáveis. Nos Boêmios, se pusermos de parte o assunto e a forma, acha-se em Azevedo um pouco daquela versificação de Dinis, não na admirável cantata de Dido, mas no precioso poema do Hissope. Azevedo metrificava às vezes mal, tem versos incorretos que havia de emendar sem dúvida; mas em geral tinha verso cheio de harmonia, e naturalidade, muitas vezes numeroso, mutíssimas eloquente.
          Ensaiou-se na prosa, e escreveu muito; mas sua prosa não é igual ao seu verso. Era frequentemente difuso e confuso; faltava-lhe precisão e concisão. Tinha os defeitos próprios das estreias, mesmo brilhantes como eram as dele. Procurava abundância e caía no excesso. A ideia lutava-lhe com a pena, e a erudição dominava a reflexão. Mas se não era tão prosador como poeta, pode-se afirmar, pelo que deixou ver e entrever, quando se devia esperar dele, alguns anos mais.
          O que deixamos dito de Azevedo podia ser desenvolvido em muitas páginas, mas resume completamente o nosso pensamento. Em tão curta idade, o poeta da Lira dos vinte anos deixou documentos valiosíssimos de um talento robusto e de uma imaginação vigorosa. Avalia-se por aí o que viria a ser quando tivesse desenvolvido todos os seus recursos. Diz-nos ele que sonhava, para o teatro, uma reunião de Shakespeare, Calderon e Eurípedes, como necessária à reforma do gosto da arte. Um consórcio de elementos diversos, revestindo a própria individualidade, tal era a expressão de seu talento.

Por Machado de Assis

2ª Crítica

          A obra de Álvares de Azevedo é toda de divulgação póstuma. Maneco mal teve tempo de escrevê-la, quanto mais de organizá-la para publicação. Em 1853, o seu amigo Domingos Jacy Monteiro, seguindo as intenções do autor, que deixara anotações para a publicação em alguns cadernos, organiza o primeiro volume das “Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo”. Com o título de Poesias, o livro traz a primeira versão de Lira dos Vinte Anos, dividido em duas partes, mas sem os seus respectivos prefácios, e incluindo apenas os poemas até “É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!”. A partir da edição organizada por Joaquim Norberto de Sousa e Silva, em 1873, foi acrescida uma terceira parte ao livro. E assim, a cada edição a obra se modificava.
          A versão do livro que hoje temos como definitiva foi organizada por Homero Pires para a edição da Obras Completas de Álvares de Azevedo da Companhia Editora Nacional, em 1942. Ela é composta por um “Prefácio” geral à obra; uma “Dedicatória” à mãe do poeta; a Primeira Parte, composta por 33 poemas que vão de “No Mar” a “Lembrança de Morrer”; a Segunda Parte, com  o seu “Prefácio”  e se compõe de 19 poemas que vão de “Um Cadáver de Poeta” a “Minha Desgraça”  - incluindo-se aqui, na contagem, os 6 da série “Spleen e Charutos”; e de uma Terceira Parte que vai de “Meu Desejo” a “Página Rota” e que, nas palavras do próprio Homero Pires, “não é senão uma continuação da primeira parte”. 
          Para melhor entendermos as partes em que a obra se compõe, precisamos, antes, investigar um pouco as influências que o jovem Maneco recebeu dos autores mais importantes de seu tempo.

Por Frederico Barbosa.

3ª Crítica

          Lira dos 20 anos, único texto que o poeta preparou para publicação, foi editado postumamente, em 1853, apresenta claramente duas faces: a primeira e a terceira partes mostram um Álvares de Azevedo suave, ingênuo, sentimental, elegíaco. É o que Antonio Cândido chamou de a face de Ariel. A segunda parte mostra um poeta macabro, satírico e sarcástico, constituindo o que o citado crítico chama de a face de Caliban. Nela uma veia humorística submete as próprias obsessões do romantismo brasileiro a desmistificações prosaicas, num exemplo nacional de ironia romântica. O poeta sensível e recatado da primeira parte dá lugar a um poeta cínico e irreverente, que desfaz o mundo de sonhos e fantasias das outras partes da obra. Essas duas facetas da poética de Álvares de Azevedo exprimem os dois modos fundamentais que o poeta romântico alemão Schiller apontou como espécies da poesia sentimental moderna: o patético e o satírico. Ao primeiro, cabe evocar o real distante; e, ao segundo, agredir o real presente.

Por: Manoel Neves       

Texto Individual


          Manuel Antônio Álvares de Azevedo foi sem dúvida o melhor da sua geração do Romantismo, a 2ª geração, também conhecida como Byroniana, Ultra-Romântica ou Mal-do-Século. Melancolia, sarcasmo e o subjetivismo estão sempre presentes em suas obras, os temas mais comuns são o desejo de amor e a busca pela morte. Uma característica interessante é a presença do Complexo de Édipo em pontos de sua produção. Álvares foi influenciado por Lord Byron (daí o motivo pelo qual também o chamavam de” Byron Brasileiro”), Heine, Musset, Shakespeare, Dante e Goethe.
          Em apenas 20 anos de vida, Álvares de Azevedo produziu diversas obras, dentre elas destacam-se o conto “A Noite na Taverna”, a peça de teatro “Macário” e a sua obra mais importante: a “Lira dos Vinte Anos”, grande parte das suas obras só foram publicadas após a sua morte.
          A obra “Lira dos Vinte Anos” é composta de diversos poemas, distribuídos em 3 partes, sendo a 1ª e a 3ª pertencentes à Face Ariel, e a 2ª à Face Caliban. A Face Ariel é a parte ingênua e inocente, enquanto a Face Caliban apresenta a ironia e o sarcasmo. A “Lira dos Vinte Anos” abrange o melhor da produção poética de Maneco (assim chamado por familiares e amigos), as poesias: “Idéias Íntimas”, “Spleen e Charutos”, “Lembranças de Morrer”,” Se Eu Morresse Amanhã” e “É Ela! É Ela! É Ela! É Ela!” são excelentes exemplos do sucesso da Lira. A poesia “Se Eu Morresse Amanhã foi escrita por Maneco somente um mês antes de sua morte.
          Álvares de Azevedo, Patrono nº 2 da Academia Brasileira de Letras, considerado gênio por artistas consagrados, “daquele que seria talvez o máximo poeta brasileiro” segundo José Veríssimo, morreu e tornou-se mito, seu nome ficou cravado na história do Romantismo Brasileiro, tornou-se referência, como Byron, Shakespeare e outros que um dia foram as suas.